Para algumas pessoas, parar de apostar pode ser extremamente difícil mesmo quando elas já percebem prejuízos financeiros, conflitos familiares ou sofrimento emocional. Isso acontece porque o comportamento de apostar pode envolver mecanismos de recompensa, perda de controle e uma tentativa constante de recuperar aquilo que foi perdido.
Esse padrão pode estar relacionado ao transtorno do jogo, uma condição reconhecida pela Classificação Internacional de Doenças (CID-11) entre os transtornos decorrentes de comportamentos aditivos.
O que é o transtorno do jogo?
O transtorno do jogo é caracterizado por um padrão persistente de comportamento relacionado a apostas que envolve dificuldade de controlar o ato de jogar, aumento da prioridade dada às apostas e continuidade do comportamento mesmo diante de consequências negativas.
Uma pessoa pode apostar eventualmente, estabelecer um limite de dinheiro e tempo e seguir sua rotina normalmente. Nesse caso, o comportamento não necessariamente representa um transtorno.
A preocupação surge quando apostar começa a interferir em outras áreas da vida e a pessoa percebe que está perdendo o controle sobre esse comportamento.
Por que apostar pode se tornar tão difícil de interromper?
As apostas envolvem o sistema de recompensa do cérebro, que participa da sensação de gratificação associada a diferentes comportamentos.
A possibilidade de ganhar, a expectativa do resultado e a própria experiência da aposta podem reforçar o comportamento. Com a repetição, algumas pessoas passam a buscar novamente aquela sensação de expectativa e recompensa.
É importante entender que isso não significa que a dopamina seja “a substância do vício” ou que o cérebro simplesmente fique “viciado em dopamina”. O processo é mais complexo e envolve diferentes circuitos cerebrais relacionados à recompensa, motivação e tomada de decisões.
Além disso, existe outro mecanismo que pode manter o ciclo: a tentativa de recuperar as perdas.
O ciclo de tentar recuperar o dinheiro perdido
Imagine alguém que aposta R$ 100 e perde.
Em vez de encerrar a atividade, pensa:
“Vou apostar mais uma vez para recuperar.”
A próxima aposta também pode resultar em perda. Então surge uma nova tentativa de recuperar o dinheiro anterior.
Esse comportamento pode se repetir várias vezes, fazendo com que a pessoa aposte valores cada vez maiores e acumule prejuízos.
A dificuldade está justamente em interromper o ciclo. A aposta seguinte passa a ser vista como uma oportunidade de recuperar o que já foi perdido, quando, na prática, pode aumentar ainda mais o prejuízo.
Quando a aposta deixa de ser entretenimento?
Alguns sinais merecem atenção:
- dificuldade de controlar quanto ou com que frequência aposta;
- aumento progressivo do tempo ou dinheiro destinado às apostas;
- preocupação constante com jogos e apostas;
- tentativa repetida de parar sem conseguir;
- necessidade de apostar novamente para recuperar perdas;
- esconder das pessoas quanto está apostando ou perdendo;
- pedir dinheiro emprestado ou comprometer recursos necessários para apostar;
- continuar apostando mesmo depois de problemas financeiros, familiares ou profissionais.
A Organização Mundial da Saúde destaca justamente a perda de controle, a prioridade crescente dada ao jogo e a continuidade apesar das consequências negativas como elementos centrais do transtorno.
E os danos podem aparecer antes mesmo de a pessoa preencher todos os critérios para um diagnóstico. O jogo problemático pode levar, por exemplo, à utilização de dinheiro destinado a despesas essenciais
O sofrimento emocional também pode fazer parte do ciclo
Para algumas pessoas, apostar não está relacionado apenas à possibilidade de ganhar dinheiro.
O comportamento também pode funcionar como uma tentativa de lidar com emoções difíceis, como ansiedade, estresse, frustração, solidão ou tédio.
A aposta pode proporcionar uma sensação momentânea de distração, expectativa ou alívio. Quando esse efeito passa, a pessoa pode voltar a apostar para tentar sentir novamente aquela sensação.
Assim, o comportamento pode se transformar em uma estratégia inadequada para lidar com o sofrimento emocional.
Por isso, tratar apenas o comportamento de apostar, sem compreender o que está acontecendo na vida daquela pessoa, pode não ser suficiente.
Como é feito o tratamento para o vício em apostas?
O primeiro passo é uma avaliação profissional, que busca compreender a frequência das apostas, a perda de controle, os prejuízos causados e os fatores emocionais envolvidos.
O tratamento pode incluir psicoterapia, especialmente abordagens que trabalham pensamentos e comportamentos relacionados às apostas. A terapia cognitivo-comportamental, por exemplo, é utilizada no tratamento de problemas relacionados ao jogo.
Em alguns casos, estratégias práticas também fazem parte do cuidado, como limitar o acesso às plataformas de apostas, estabelecer barreiras financeiras e contar com o apoio de pessoas de confiança.
Procurar ajuda não significa falta de força de vontade
O transtorno do jogo não deve ser reduzido a uma questão de caráter ou de falta de disciplina.
Existe um comportamento repetitivo que pode envolver mecanismos de recompensa, dificuldade de controle e sofrimento emocional. Por isso, dizer simplesmente “é só parar de apostar” ignora a complexidade do problema.
Quanto antes a pessoa reconhecer os sinais e buscar ajuda, maiores são as possibilidades de interromper esse ciclo e reduzir os prejuízos.
Se apostar deixou de ser uma escolha e passou a controlar parte da sua vida, uma avaliação psiquiátrica pode ajudar a entender o que está acontecendo e quais caminhos de tratamento podem ser indicados para o seu caso.


